terça-feira, 14 de maio de 2013

O poema consta do livro Nelson Mandela: conversas que tive comigo, lançado no Brasil pela editora Rocco.
 ... a cela é um lugar ideal para aprendermos a nos conhecer, para se vasculhar realística e regularmente os processos da mente e dos sentimentos. Ao avaliarmos nosso progresso como indivíduos, tendemos a nos concentrar em fatores externos, como posição social, influência e popularidade, riqueza e nível de instrução. Certamente são dados importantes para se medir o sucesso nas questões materiais, e é perfeitamente compreensível que tantas pessoas se esforcem tanto para obter todos eles. Mas os fatores internos são ainda mais decisivos no julgamento do nosso desenvolvimento como seres humanos. Honestidade, sinceridade, simplicidade, humildade, generosidade pura, ausência de vaidade, disposição para ajudar os outros — qualidades facilmente alcançáveis por todo indivíduo — são os fundamentos da vida espiritual. O desenvolvimento de questões dessa natureza é inconcebível sem uma séria introspecção, sem o conhecimento de nós mesmos, de nossas fraquezas e nossos erros. Pelo menos - ainda que seja a única vantagem - a cela de uma prisão nos dá a oportunidade de examinarmos diariamente toda a nossa conduta, de superarmos o mal e desenvolvermos o que há de bom em nós. A meditação diária, de uns 15 minutos antes de nos levantarmos, é muito produtiva nesse aspecto. A princípio, pode ser difícil identificar os aspectos negativos em sua vida, mas a décima tentativa pode trazer valiosas recompensas. Não se esqueça de que os santos são pecadores que continuam tentando.


Trecho de uma carta de Nelson Mandela escrita na prisão para sua então esposa Winnie, datada de 1º de fevereiro de 1975
Colocar- se no lugar de um homem como Nelson Mandela, que teve 27 dos seus atuais 92 anos consumidos no cárcere, distante da família por questões políticas e de preconceito racial, é tarefa talvez impossível para quem não viveu experiência semelhante. Uma chance de pelo menos tentar é recorrer à poesia:

Uma árvore derrubada
E os frutos se espalharam
chorei
porque havia perdido uma família
o tronco, meu pai
os galhos, seu apoio
e também
os frutos, a mulher e os filhos (...)

Detalhe: o verso acima foi escrito em fevereiro de 1980 por Zindzi Mandela, filha do ex- presidente sulafricano, quando ele estava na prisão e ela era adolescente. E bateu fundo nele.




 Já antes de começar, o livro emociona: há uma dedicatória a Zenani Mandela, a bisneta de Mandela morta no capotamento de um carro, em 10 de junho de 2010 — um dia antes de se iniciar a Copa do Mundo da África. Em seguida, no prefácio, consta um emotivo texto do presidente americano, Barack Obama, também ele negro. Obama define Mandela como "um ser humano que escolheu sobrepor a esperança ao medo".

Mas o próprio Mandela surpreende ao tentar a autodesmitificação: "Uma coisa que me preocupava na prisão era a imagem falsa que eu inadvertidamente projetei para o mundo; era ser considerado um santo", revela. Depois, arremata: "Nunca fui um santo, mesmo se baseado na definição terrena de um santo como um pecador que continua tentando". E dá uma aula de humildade: "Os erros são inerentes à ação política. Quem está no centro da luta política, tendo que lidar com problemas práticos e prementes, dispõe de pouco tempo para a reflexão (...) e está sujeito a errar."

O livro compila documentos pessoais de Mandela, nos quais revela a dor que sentia por estar longe da família nas quase três décadas de prisão imposta pelo regime racista do apartheid. Há cartas e gravações pessoais, reunidas por sua fundação para mostrar o homem por trás do ícone, o Nobel da Paz de 1993 premiado por combater o segregacionismo oficial sul-africano. Libertado em fevereiro de 1990 — havia sido preso em agosto de 1962 —, ele se tornou, quatro anos depois, o primeiro presidente negro no seu país, de esmagadora maioria negra. Deixou o poder em 1999 e se tornou um mito, hoje fisicamente alquebrado. Quem o conhece diz que a humildade não se resume ao livro. Mandela é um homem que insiste em ser comum. Em sua autoiconoclastia, reflete sobre sua juventude: " Eu reunia as fraquezas, erros e indiscrições de um garoto do Interior (...)."

Depreende- se das cartas escritas na prisão que Mandela sentia remorso pela impotência de não conseguir ajudar a mulher, Winnie, e os filhos. Quando Winnie também foi presa, em 1969, ele escreveu para as filhas Zeni e Zindi, na época com nove e 10 anos: " Agora, mamãe e papai estão na prisão. Pode ser que passem meses ou mesmo anos até que vocês a vejam novamente. Talvez vocês vivam como órfãs, sem a casa e os pais, sem o amor natural, o carinho e a proteção que mamãe dava a vocês", diz a carta.

Mas a relação dele com Winnie — os dois se separaram logo após a libertação, episódio que não é relatado na obra — era conturbada. E isso não fica alheio às cartas. A um amigo, em 1987, ele se disse " chocado" quando Winnie o acusou de amar mais as filhas do que a ela. Para outro amigo, chora a morte de Thembi, o filho mais velho, do primeiro casamento, em um acidente de carro. Era 1969. Thembi tinha 24 anos. E o agravante: preso, Mandela não pôde ir aos funerais. Veio o remorso por, distante, não ter acompanhado o crescimento dos filhos, sem " banhá- los alimentá- los e contar- lhes histórias". Ele escreveu: "Minha mente e meus sentimentos estiveram demasiado agitados para eu me dar conta das tensões psicológicas que minha ausência provocou nos meus filhos".

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