quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Use a ausência para aumentar sua honra e respeito

As leis do poder - De Robert Greene e Joost Elffers
 Listado durante várias semanas entre os mais vendidos da revista de negócios americana Business Week, o livro The 48 Laws of Power (As 48 Leis do Poder), de Robert Greene e Joost Elffers, analisa situações de poder de maneira implacável, amoral e às vezes até cruel. Logo no início, um alerta dos autores dá o tom do que virá a seguir: "No mundo de hoje é perigoso demonstrar muita fome de poder. Precisamos ser agradáveis mas astutos, democráticos mas calculistas".
A abordagem de Greene e Elffers parece estar completamente fora de sintonia com a literatura de vanguarda sobre gestão empresarial. Hoje em dia, costuma-se enfatizar o papel relevante da cooperação e das parcerias estratégicas para atingir e consolidar competitividade. Mas o livro tem o mérito de levantar a discussão sobre o aspecto talvez mais delicado e desafiante do atual ambiente do mundo dos negócios: as relações de poder estão aparentemente mais democráticas, mas ao mesmo tempo muito mais sutis, o que exige dos jogadores maior competência política. Veja Book trailer...


Para dominar esse assunto, segundo os autores, é preciso desenvolver a habilidade de desvendar a alma humana para estabelecer relações interpessoais mais produtivas. Poder é, antes de tudo, um jogo social.
O livro surpreende não pelo ineditismo do tema, mas sim pela forma fria e cínica de abordá-lo. As leis de Greene e Elffers são fundamentadas em escritos de estadistas, estrategistas políticos, pensadores e escritores. Gente como Maquiavel, Napoleão, Sun Tzu, Bismarck, Leonardo da Vinci e Nietzsche. Quais são essas leis? Eis as mais chocantes:

Coloque-se como amigo, trabalhe como espião

Cultive um ar de imprevisibilidade e mantenha os outros em estado de tensão

Desdenhe aquilo que não pode ter: ignorar é a melhor vingança

Faça com que as pessoas venham até você: use uma isca, se necessário

Faça com que os outros trabalhem para você, mas leve sempre o crédito

Não construa fortalezas para se proteger, pois o isolamento é perigoso

Nunca supere o brilho do mestre

Pense da forma que quiser, mas comporte-se como os demais

Quando pedir ajuda, apele aos interesses das pessoas, nunca à piedade ou à gratidão

Essas leis poderiam ser sintetizadas em apenas uma: poder é a arte da astúcia. Exige perícia para jogar com as aparências e lidar com a fogueira das vaidades humanas.
O livro é oportuno para o leitor brasileiro na medida em que pode suscitar a crítica de alguns traços culturais de nossa sociedade. Todos nós temos contato com exemplos cotidianos de excesso de valorização da hierarquia, paternalismo, cultivo do apadrinhamento ou mesmo coronelismo e autoritarismo. Muitos desses traços se reproduzem na vida organizacional. O resultado para o mundo corporativo são contradições sérias: as empresas querem pessoas competentes e geniais, mas ao mesmo tempo obedientes e submissas; empreendedoras e com habilidade de liderança, mas sem dose correspondente de poder e autonomia.
A obra de Greene e Elffers dá, porém, a impressão de que preparar-se para o exercício do poder é sinônimo de pregar o conformismo. Estaríamos perpetuando, assim, as palavras de Nelson Rodrigues numa de suas brilhantes crônicas: "É tão importante ser idiota, tão decisivo, que já desponta a fauna, sem precedentes, dos falsos cretinos . São rapazes inteligentíssimos, bem-dotadíssimos, alguns beirando a genialidade. Pois bem. O sujeito, para viver, ou sobreviver, enterra o próprio espírito, como as jóias de Raskolnikov".
Esta me parece uma grande limitação do livro: ele é cortante ao analisar situações reais de disputas de poder, mas não oferece alternativas. Estimula o leitor a pensar que a absorção dessas leis perniciosas seria a única forma de conviver com o poder. Será que é assim que formaremos verdadeiros líderes?

                                

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